São Tomé e Príncipe: 5 Rotas Inesquecíveis Entre Praias, Cacau e Floresta Tropical
Confesso que parti para São Tomé sem saber exatamente o que esperar. Sabia que encontraria praias bonitas, natureza exuberante e calor tropical. O que não imaginava era regressar a casa tão apaixonada por um destino.
Ao longo de vários dias percorri a ilha de São Tomé de uma
ponta à outra. Visitei plantações de cacau e café, caminhei até ao Marco do
Equador, mergulhei em praias quase desertas, explorei cascatas escondidas na
floresta tropical e conheci alguns dos lugares mais emblemáticos do país.
Este artigo reúne todas essas experiências. Se estás a
pensar visitar São Tomé e Príncipe, espero que estas rotas te ajudem a planear
a viagem. E se ainda não pensaste nisso... espero que no final desta leitura fiques
com vontade de reservar um voo!
Um pouco de história
Situado no Golfo da Guiné, a cerca de 250 Km da costa
ocidental africana, São Tomé e Príncipe é um arquipélago vulcânico composto por
duas ilhas principais e vários ilhéus. As ilhas foram descobertas pelos
navegadores portugueses entre 1470 e 1471 e encontravam-se desabitadas. Apesar
das dificuldades iniciais associadas ao clima equatorial e ao isolamento
geográfico, Portugal iniciou o povoamento do arquipélago, que rapidamente se
tornou num importante ponto estratégico nas rotas marítimas do Atlântico.
Durante o séc. XVI, São Tomé destacou-se como um dos maiores produtores de
açúcar do mundo, graças às condições ideais para a agricultura e à utilização
de mão de obra escravizada proveniente do continente africano.
Com o declínio da indústria açucareira, a economia das ilhas
reinventou-se. No séc. XIX, chegaram novas culturas agrícolas, entre elas o
café e o cacau, introduzidos a partir do Brasil. O cacau adaptou-se
particularmente bem ao clima húmido e fértil do arquipélago, tornando-se
rapidamente o principal produto de exportação. No início do séc. XX, São Tomé e
Príncipe chegou mesmo a ser o maior produtor mundial de cacau, ganhando fama
internacional pela qualidade dos seus grãos e o apelido de “Ilha do Chocolate”.
Foi nesta época que surgiram muitas das grandes roças que ainda hoje marcam a
paisagem e constituem alguns dos locais mais interessantes para visitar.
Após mais de cinco séculos de administração portuguesa, São
Tomé e Príncipe conquistou a independência a 12 de julho de 1975. Atualmente, é
um dos países mais pequenos de África, com cerca de 230 mil habitantes, tendo o
português como língua oficial. A herança portuguesa continua bem presente na
arquitetura, na gastronomia e em vários aspetos da vida quotidiana, coexistindo
com tradições africanas que conferem ao país uma identidade cultural única.
Apesar da sua história rica e da extraordinária beleza
natural, São Tomé e Príncipe continua a ser um destino relativamente pouco
conhecido (ainda bem!). Recebe cerca de 40 mil visitantes por ano, um número
reduzido quando comparado com outros destinos tropicais. O turismo
desenvolve-se de forma tranquila e sustentável, sem grandes complexos
turísticos ou turismo de massas. É precisamente essa autenticidade, aliada à
história das roças, às paisagens exuberantes e à hospitalidade do povo
santomense, que faz deste pequeno país um destino tão especial para quem
procura descobrir uma África diferente.
Vai à Ilha do Príncipe!
São Tomé está longe, não é uma viagem que se realize todos
os anos e, para além disto, sai caro ser turista aqui. Por isso, aproveita que
já cá estás para ir ao Príncipe.
Confesso que, antes de viajar para São Tomé e Príncipe, só
me concentrei em pesquisar o que fazer na ilha principal. No entanto, bastaram
poucas horas no Príncipe para perceber que esta pequena ilha tinha algo de
verdadeiramente único. Mais selvagem, mais tranquila e ainda mais preservada, é
um daqueles lugares que nos fazem abrandar o ritmo e simplesmente apreciar a
natureza. Como três dias não chegam para contar tudo o que vivi por lá, decidi
dedicar-lhe um artigo próprio: Ilha do Príncipe: o que fazer em 3 dias. Afinal, há lugares que merecem ser contados com
calma... e o Príncipe é definitivamente um deles.
Rotas temáticas
Todos os dias realizámos uma rota diferente e, assim,
pudemos conhecer este paraíso tropical:
Rota 1: Ilhéu das Rolas e a Linha do Equador
O passeio ao Ilhéu das Rolas foi uma das experiências mais
marcantes da nossa viagem a São Tomé e Príncipe. A aventura começou logo de
manhã, com uma paragem para admirar o impressionante Pico Cão Grande,
uma agulha vulcânica com cerca de 370 m de altura que se ergue abruptamente no
meio da floresta tropical. Considerado um dos símbolos naturais do país, é uma
das paisagens mais fotografadas de São Tomé e um verdadeiro postal do
arquipélago.
A partir da Praia Cabana embarcámos rumo ao Ilhéu das
Rolas, uma pequena ilha situada (quase) exatamente sobre a linha do
Equador. Durante a travessia, o mar azul-turquesa e a vegetação exuberante
anunciam a chegada a um dos locais mais emblemáticos do país. Antes de chegar
ao Marco do Equador, fizemos paragens em duas praias paradisíacas: a Baía
Xinha, uma pequena enseada de águas cristalinas rodeada por vegetação
tropical, e a Praia Bateria, conhecida pela sua areia clara, águas
tranquilas e ambiente praticamente intocado. Eu acho que o paraíso deve ser
algo parecido com esta praia!
Um dos momentos mais especiais do dia foi a caminhada até ao
Marco do Equador, monumento que assinala a passagem da linha imaginária
que divide os hemisférios Norte e Sul. Estar com um pé em cada hemisfério é uma
experiência simbólica que atrai muitíssimos visitantes. Eu senti uma alegria
imensa por estar neste ponto exato do mundo! Não é todos os dias que estamos em
dois hemisférios ao mesmo tempo! Pelo caminho, passámos ainda pela Praia
Café, uma das mais bonitas do ilhéu, onde o contraste entre o verde da
floresta e o azul do oceano cria cenários de rara beleza.
Antes do regresso à capital, ainda houve tempo para
desfrutar da Praia Piscina, uma pequena baía protegida por formações
rochosas que criam águas calmas e transparentes, perfeitas para um mergulho
relaxante e deixar-se estar…
Entre praias paradisíacas, paisagens vulcânicas e um dos
pontos geográficos mais famosos do planeta, este foi um passeio que reúne
alguns dos maiores tesouros naturais de São Tomé e Príncipe.
Conhecida como a "Ilha do Chocolate", São Tomé tem
uma história profundamente ligada, claro está, ao cacau, e esta rota foi uma
excelente oportunidade para compreender a importância desta cultura para o
país. O dia começou com a visita à plantação de cacau Francisco
Cabral, onde, acompanhados por uma colaboradora muito simpática, pudemos assistir
às diferentes etapas do processo de produção, desde a fermentação até à secagem
dos grãos ao sol. Foi muito interessante perceber como um produto tão comum no
nosso dia a dia exige tanto conhecimento, tempo e dedicação antes de chegar às
fábricas de chocolate.
Depois de mergulhar na história do cacau santomense,
seguimos para dois dos cenários costeiros mais bonitos da ilha. A Praia dos
Tamarindos, com a sua extensa faixa de areia, água quente sem ondas e
ambiente muitooooo tranquilo, oferece uma paisagem muito diferente das praias
tropicais mais conhecidas, tem relva e uma montanha ao lado. Acredita que há
que ver para crer!
Pouco depois chegámos à Lagoa Azul, um dos locais mais fotografados de São Tomé e percebemos exatamente porquê. Primeiro o guia parou o jeep na estrada para vermos a partir de uma perspetiva superior. Ficámos de boca aberta a olhar para as águas cristalinas em tons azul-turquesa. Aqui até os coqueiros inclinados sobre o mar são bonitos! Sem dúvida, um local perfeito para relaxar dentro de água (não há areal) ou praticar snorkeling. Aproveita para cumprir sempre com o pedido no cartaz à entrada da lagoa: Não tire nada além de fotos. Não deixe nada além de pegadas. Não leve nada além de saudade.
O almoço foi uma das surpresas mais agradáveis do dia. Em vez de optarmos por um restaurante turístico, seguimos para Neves para provar a famosa santola no Restaurante Santola. A refeição foi simples, autêntica e absolutamente deliciosa. De facto, custa acreditar que tenhamos pago apenas cerca de 6€ por pessoa por uma santola fresca! Foi um daqueles momentos que nos fazem perceber que, muitas vezes, as melhores experiências de viagem não são as mais caras, mas sim as mais genuínas!
Se não quiseres comer santola, vai ao Resort Mucumbli,
situado no topo de uma falésia, com vistas privilegiadas sobre o oceano, este
pequeno refúgio ecológico combina gastronomia local, tranquilidade e uma das
melhores vistas panorâmicas da costa norte da ilha.
Durante a tarde, continuámos a viagem pela história de São
Tomé. Visitámos o Padrão do Descobrimento, monumento que assinala a
chegada dos navegadores portugueses ao arquipélago, e o Túnel de Santa
Catarina, uma passagem escavada na rocha junto ao mar que se tornou uma das
atrações mais curiosas da ilha. A força das ondas a bater nas formações
vulcânicas e a paisagem envolvente fazem deste local um sítio particularmente
fotogénico.
A rota terminou com a visita a duas das mais emblemáticas
roças de São Tomé. A Roça Diogo Vaz, atualmente recuperada, é conhecida pela
produção de chocolate artesanal de elevada qualidade e pela preservação do seu
património histórico. Já a Roça Agostinho Neto, outrora uma das maiores
explorações agrícolas do país, impressiona pela sua dimensão e pelo testemunho
que oferece sobre a época em que o cacau dominava a economia santomense.
Caminhar por estes espaços é como viajar no tempo e compreender melhor uma parte
importante da história do arquipélago.
Entre plantações de cacau, praias paradisíacas, paisagens
vulcânicas e antigas roças coloniais, este foi um dos roteiros mais completos e
enriquecedores da nossa viagem a São Tomé e Príncipe.
A Rota do Café leva-nos ao coração verde de São Tomé, onde a
história, a agricultura e a natureza se cruzam a cada curva da estrada. O dia
começou no mercado tradicional de Bobô Forro, um dos melhores locais para
observar o quotidiano santomense. Entre bancas de frutas tropicais, legumes,
peixe fresco e produtos locais, tivemos um primeiro contacto com a vida das
comunidades que vivem longe das zonas mais turísticas da ilha.
Depois seguimos caminho para a cidade da Trindade, onde
visitámos a igreja local e conhecemos um pouco mais sobre um dos episódios mais
marcantes da história do país: o Massacre de Batepá,
ocorrido em 1953. Este acontecimento de violência colonial, que causou a morte
de centenas de santomenses, é considerado um dos momentos mais importantes na
construção da identidade nacional e do caminho que viria a conduzir à
independência.
A viagem continuou em direção à Roça Monte Café, uma das
mais conhecidas do arquipélago. Fundada no séc. XIX, foi durante muitos anos
uma das principais produtoras de café de São Tomé. Atualmente, parte das suas
instalações alberga o Museu do Café, onde é possível conhecer a história desta
cultura agrícola e a sua importância para a economia local. Caminhar pelas
antigas estruturas da roça é uma excelente forma de compreender como
funcionavam estas grandes propriedades agrícolas durante o período colonial.
Um dos momentos mais interessantes do dia foi a visita a uma
cooperativa de café, onde pudemos observar de perto as diferentes etapas da
produção e provar café cultivado nas montanhas santomenses. A qualidade do café
surpreendeu-nos pela suavidade e pelos aromas intensos, resultado das condições
únicas de altitude, humidade e fertilidade dos solos vulcânicos da ilha. Sou
louca por café, portanto, aqui comprei um souvenir para mim! Por certo, as
mesmas embalagens que comprei aqui por 8€, estavam à venda no aeroporto por
25€.
O almoço desta rota é especial! Ou pelo menos eu tinha muita
curiosidade em visitar a Casa-Museu Almada Negreiros, instalada na histórica
Roça Saudade, local onde nasceu o este artista, escritor e poeta português. O espaço foi cuidadosamente recuperado e transformado num
museu e restaurante, que preserva a ligação ao artista ao mesmo tempo que
valoriza a arquitetura colonial da antiga roça. A decoração combina elementos
históricos, arte contemporânea e referências à vida e obra de Almada Negreiros,
criando um ambiente elegante e acolhedor.
Um dos grandes destaques deste espaço é a localização
privilegiada. Almoçar e contemplar uma vista magnífica sobre a floresta
tropical e as montanhas do interior da ilha foi uma experiência que adorei. Ao
contrário de um restaurante tradicional, aqui não há ementa nem
possibilidade de escolha dos pratos. O almoço é um menu
degustação, composto por vários pratos (apresentados um por um pelo empregado) preparados
com produtos locais e inspirados nos sabores santomenses, o que nos permite
descobrir ingredientes e combinações que dificilmente experimentaríamos de
outra forma. Tem calma, é um menu de degustação, mas não ficas com fome!
Devido à reputação do restaurante e ao número limitado de
lugares, recomendo que reserves com antecedência. Mais do que uma simples refeição, esta foi uma verdadeira
experiência gastronómica e cultural, num dos espaços mais bonitos que visitámos
em São Tomé.
De barriga cheia fomos até à Cascata de São Nicolau (não é possível
tomar banho), provavelmente uma das quedas de água mais conhecidas de São Tomé.
Envolvida por vegetação exuberante, ela surge como um cenário quase
cinematográfico, por isso, não é de estranhar que seja uma das paragens
preferidas dos turistas.
Mais do que um passeio sobre café, esta rota foi como uma
viagem pela história, pela cultura e pelas paisagens montanhosas de São Tomé,
mostrando um lado da ilha que muitos turistas acabam por não conhecer.
Rota 4: Angolares, História e Gastronomia
A costa sudeste de São Tomé oferece algumas das paisagens
mais impressionantes da ilha e foi precisamente isso que descobrimos nesta rota.
A primeira paragem foi na cidade de Santana, uma pequena localidade costeira
conhecida pelas suas praias tranquilas e pelo ambiente descontraído. Seguimos
depois para a Foz do Rio Abade, onde o rio encontra o oceano num cenário
de grande beleza natural. Encontrámos as mulheres a lavar a roupa e a secá-la
no chão. Algo impensável para nós, que estamos rendidos à máquina de lavar, mas
foi muito curioso ver o chão cheio de retalhos de cor.
O percurso continuou pela histórica Roça Água Izé,
considerada uma das mais importantes e emblemáticas de São Tomé. Fundada no séc.
XIX, foi uma das maiores plantações de cacau do arquipélago e ainda hoje
impressiona pela dimensão dos edifícios e pela atmosfera que nos transporta
para outra época. Caminhar pelos seus corredores e observar as estruturas que
resistiram ao tempo é uma forma de compreender melhor o papel que as roças
desempenharam na economia e na história do país.
Um dos momentos mais impressionantes do dia foi a visita à Boca
do Inferno. Também temos uma em Cascais, mas esta é maior e demonstra bem a
força das ondas do Atlântico que invadem as formações rochosas vulcânicas,
criando jatos de água e um espetáculo natural que justifica plenamente o nome.
Pelo caminho, passámos pela Praia das Sete Ondas, uma
das praias mais conhecidas desta zona da ilha. O nome já diz tudo: mar agitado
pelas ondas sucessivas que chegam à costa. A paisagem é bonita, selvagem e
muito fotogénica. Não é uma praia para grandes mergulhos, eu nem cheguei a
entrar, mas é perfeita para parar, observar a força do Atlântico e sentir esse
lado mais indomável de São Tomé.
Daqui fomos à Praia Micondó, mais tranquila e rodeada
por vegetação tropical, onde o ambiente parece muito mais remoto e autêntico.
Esta parte da ilha mostra um São Tomé menos turístico, mas absolutamente
fascinante. São daqueles lugares que nos fazem sentir que descobrimos um
segredo ainda bem guardado!
O ponto alto do roteiro chegou à hora do almoço, na famosa Roça
São João dos Angolares. Instalada numa antiga roça recuperada, este espaço é muito mais do que um restaurante: é um projeto
cultural e gastronómico que celebra os sabores e tradições de São Tomé. O
almoço é servido em formato de degustação, sem possibilidade de escolha dos
pratos, o que nos permite provar diferentes especialidades preparadas com
ingredientes locais e sazonais.
Um dos aspetos mais especiais da experiência é a presença do
chef João Carlos Silva, que costuma passar pelas mesas para conversar com os
visitantes, explicar os pratos e partilhar histórias sobre a cultura e a
gastronomia do país. A propriedade inclui uma pequena loja com produtos locais,
livros e artesanato, tudo isto enquadrado por uma vista extraordinária sobre o
oceano e a vegetação tropical. Como é um dos restaurantes mais procurados da
ilha, aconselho vivamente a reservares com antecedência (35€/pessoa).
Esta rota foi uma combinação perfeita entre natureza,
património e gastronomia. Vimos um lado de São Tomé onde a história e os
sabores locais se encontram em cenários de excecional beleza.
Rota 5: À Descoberta das Cascatas da Floresta Tropical
Embora este passeio não fizesse parte do programa inicial da
viagem, acabou por se tornar uma das experiências mais especiais que vivemos em
São Tomé. Ao longo dos dias, o nosso guia percebeu rapidamente o quanto
gostávamos de natureza, caminhadas e locais menos turísticos. Por isso, propôs-nos
uma rota extra, para o último dia, pelo interior da ilha, à descoberta de
várias cascatas escondidas no meio da floresta tropical.
O percurso levou-nos ao coração verde de São Tomé, uma
região onde a vegetação parece crescer sem limites e onde cada curva revela uma
nova paisagem. Caminhámos por trilhos rodeados de árvores diferentes,
atravessámos pequenas pontes e ouvimos o som da água a correr entre a floresta.
Pelo caminho encontrámos várias cascatas, algumas mais conhecidas, outras
praticamente escondidas, mas que são autênticos refúgios naturais longe de
qualquer agitação humana.
O que mais me impressionou foi a sensação de estar num lugar
quase intocado, onde estávamos só nós e a natureza no seu estado mais puro. Adorei
a Cascata Bombaim que surgiu, inesperadamente, para mim, entre a vegetação. Em
vários momentos parámos simplesmente para apreciar a paisagem, ouvir os sons da
floresta e absorver a tranquilidade que tão caracteriza São Tomé.
Foi também neste passeio que percebi por que razão tantas
pessoas se apaixonam por este país. As praias são extraordinárias, mas existe
um outro São Tomé, menos fotografado e igualmente fascinante: o das montanhas,
dos rios, das cascatas e da floresta tropical. Um São Tomé mais selvagem, mais
autêntico e profundamente ligado à natureza.
Se tiveres a oportunidade de personalizar a tua viagem,
recomendo vivamente incluir um passeio semelhante. Por vezes, são precisamente
as experiências que não estavam planeadas que acabam por se transformar nas
melhores memórias de uma viagem.
O almoço teve lugar na encantadora Roça Santo António
Ecolodge, um refúgio rodeado por floresta tropical onde o tempo parece correr
mais devagar. A tranquilidade do espaço, a beleza da natureza envolvente e a
atmosfera acolhedora fizeram desta uma das refeições mais especiais da viagem.
Enquanto saboreávamos o almoço, demos por nós a pensar que
dentro de poucas horas estaríamos a caminho de Lisboa. Pela primeira vez
durante toda a viagem, sentimos aquela estranha mistura de gratidão e tristeza
que surge quando sabemos que uma experiência inesquecível está prestes a
terminar. São Tomé e Príncipe tinha-nos conquistado de tal forma que nenhum de
nós tinha vontade de partir. Talvez porque há destinos que visitamos... e
outros que, de alguma forma, passam a fazer parte de nós.
Não estava esquecida, é que capital, São Tomé, que fomos
conhecendo pouco a pouco ao final de cada dia. Depois dos passeios pelas
diferentes regiões da ilha, regressávamos à cidade e aproveitávamos as últimas
horas de luz para passear pelas suas ruas, observar os edifícios coloniais,
conhecer a Praça da Independência, a Sé Catedral de Nossa Senhora da Graça, o
Palácio Presidencial e o Forte de São Sebastião, onde funciona atualmente o
Museu Nacional.
Talvez por isso as minhas memórias da capital estejam tão
associadas aos seus magníficos pores do sol. Enquanto caminhávamos junto ao mar
ou procurávamos um local para jantar, o céu transformava-se num espetáculo de
cores, com tons de laranja, dourado e rosa a refletirem-se sobre o oceano.
Foram momentos simples, sem nada em particular, mas que ajudaram a tornar São
Tomé ainda mais especial, ajudaram!
Uma das melhores formas de conhecer um país é sentar-se à
mesa. E São Tomé não foi exceção. Ao longo da viagem tivemos a oportunidade de
provar vários pratos típicos e descobrir uma gastronomia simples, autêntica e
fortemente ligada aos produtos locais. O peixe fresco e o marisco surgem com
frequência nos menus, mas também há espaço para banana-pão, fruta tropical,
café e, claro, o famoso cacau santomense.
Na capital houve três restaurantes que me conquistaram
particularmente: o Petiscos Vilma, o Pirata e o Papa Figos. São três espaços
bastante diferentes entre si, mas onde comemos sempre muito bem. Em todos
encontrámos pratos bem confecionados, peixe fresco e um ambiente descontraído
que nos permitiu desfrutar das refeições sem pressas.
Durante estes dias apercebi-me também de uma realidade
curiosa. Os preços praticados em muitos restaurantes da capital não diferem
muito daqueles que encontramos em Madrid (refiro-me, obviamente, ao menu de
almoço disponível de 2.ª a 6.ª feira, que ronda os 14 e os 16€). Na nossa viagem,
tínhamos os almoços incluídos, mas os jantares custaram todos à volta de 16 a
20 € por pessoa, valores perfeitamente normais para um visitante europeu, mas
difíceis de conciliar com a realidade económica de grande parte da população
local. É um contraste que não passa despercebido a quem procura compreender um
pouco melhor o país para além das paisagens e dos locais turísticos.
Mais do que os restaurantes em si, aquilo que guardo na
memória são os sabores. Não é uma gastronomia sofisticada nem elaborada, mas é
precisamente essa simplicidade que a torna tão genuína.
No final, viajar também é isto: descobrir um destino através
da sua comida, das suas tradições e das conversas que acontecem à volta da
mesa. E, nesse aspeto, São Tomé soube receber-nos muito bem.
Um agradecimento especial ao nosso guia
Nenhum artigo sobre esta viagem ficaria completo sem uma referência ao nosso guia, Edney Diogo. Durante vários dias acompanhou-nos pelas estradas, praias, roças e trilhos de São Tomé, sempre com um sorriso, uma história para contar e uma enorme vontade de mostrar o melhor do seu país. À medida que nos foi conhecendo, adaptou os passeios àquilo de que mais gostávamos e ajudou-nos a descobrir locais e experiências que tornaram a viagem ainda mais especial.
Há guias que nos mostram um destino e há pessoas que acabam por fazer parte da viagem. O Edney pertence claramente ao segundo grupo. Regressámos a casa com centenas de fotografias, muitas memórias felizes e a certeza de que, em São Tomé, deixámos um amigo
Saio de São Tomé com a certeza de que voltarei. Há destinos
que nos impressionam pela beleza e outros que nos conquistam pela forma como
nos fazem sentir. São Tomé conseguiu fazer as duas coisas. Encantou-me com as
suas paisagens, surpreendeu-me com a sua história e conquistou-me com a
simpatia do seu povo.
Há, contudo, uma característica de São Tomé que não aparece
nas rotas, não se visita e não se fotografa facilmente, mas que merece ser
falada: o famoso "Leve Leve". Mais do que uma expressão, é uma forma
de estar na vida. Aqui ninguém parece viver com a pressa a que estamos
habituados na Europa. Os problemas resolvem-se com calma, as conversas
prolongam-se sem olhar constantemente para o relógio e os dias seguem um ritmo
ditado pela natureza e não pela agenda. Nos primeiros dias pode causar alguma
estranheza. Depois começamos a perceber o seu encanto. E, quando regressamos a
casa, damos por nós a sentir falta dessa tranquilidade que parece existir em
cada esquina da ilha.
Apesar de tudo, termino esta viagem com um sentimento agridoce. Quero muito que mais pessoas descubram este destino extraordinário e percebam tudo o que ele tem para oferecer. Mas também gostava que continuasse a conservar a autenticidade, a tranquilidade e a simplicidade que hoje o tornam tão especial. Sei que é um desejo difícil de concretizar. O turismo traz oportunidades e desenvolvimento, mas espero que São Tomé consiga crescer sem perder a sua essência.
Talvez seja essa a maior riqueza destas ilhas: a sensação de que ainda existem lugares no mundo onde a natureza dita o ritmo, onde as praias continuam quase vazias e onde a autenticidade não é uma estratégia de marketing, mas uma forma de vida. E espero sinceramente que assim continue por muitos anos.
Obrigada por me acompanhares nesta viagem!
Se este artigo te inspirou, guarda-o para mais tarde, partilha-o com alguém que goste de viajar ou deixa um comentário com a tua opinião!
Eu continuarei por aqui, mochila às costas, à procura de novas histórias para contar. 🎒❤️
📸 Podes acompanhar as minhas viagens no Instagram @alentejanamochileira
📷 Todas as fotografias deste artigo foram captadas durante a minha viagem. Se pretenderes utilizar alguma imagem, entra em contacto comigo primeiro.








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