Ilha do Príncipe: o que fazer em 3 dias
Três Dias no Príncipe: Um paraíso ainda tão pouco conhecido
Se São Tomé me conquistou, o Príncipe roubou-me
completamente o coração. Mais pequeno, mais selvagem e ainda mais preservada,
esta ilha parece viver num ritmo próprio, onde a natureza continua a ser a
grande protagonista. Com praias praticamente desertas, floresta tropical
exuberante e uma tranquilidade difícil de encontrar nos dias de hoje, o
Príncipe é um daqueles lugares que nos fazem desejar ficar muito mais tempo.
(Quem diria, sendo eu tão orgulhosamente urbana!)
Porque a ilha se chama Príncipe? Curiosamente, nem sempre
teve este nome. Quando a ilha foi descoberta pelos portugueses em 1471, foi
inicialmente chamada Santo Antão. Mais tarde, passou a chamar-se
"Príncipe" em homenagem ao príncipe herdeiro de Portugal, D. Afonso,
filho do rei D. João II.
Vamos lá?
Chegar ao Príncipe já faz parte da aventura. A forma mais
comum é através de um voo doméstico a partir de São Tomé, com uma duração de
cerca de 30 minutos, num avião só com 18 lugares, onde só podes levar mochila e
não há porta para o cockpit. Advinha onde é que eu fui sentada? No assento
número 1, claro, quase ao lado do piloto! À medida que o avião se aproxima da
ilha, é impossível não ficar impressionado com o contraste entre o verde muito
intenso da floresta e o azul profundo do oceano. É neste momento que começamos
a perceber por que tantos turistas descrevem o Príncipe como um dos últimos
paraísos tropicais do planeta.
Se o aeroporto de São Tomé é pequeno, este é minúsculo! À
entrada do edifício medem-nos a febre e pagas a taxa obrigatória de 10€ (tens
de guardar o papel porque to podem pedir quando regressares a São Tomé). Começa
a aventura!
Primeiro dia: descanso no Bom Bom
O nosso primeiro dia foi dedicado simplesmente a abrandar o
ritmo. Deixámos as coisas no hotel e rumámos até à praia do Bom Bom, uma das
mais bonitas da ilha. Areia dourada, mar calmo, coqueiros e uma sensação
constante de isolamento que nos fazia sentir que estávamos num pequeno paraíso
privado. Depois de vários dias de passeios intensos em São Tomé, foi o local
perfeito para descansar e absorver toda a beleza do arquipélago.
Não estás alojado no Bom Bom? Nós também não!
O hotel disponibiliza uma parte da praia para gente como
nós! Podemos passar aqui horas a relaxar, a tomar banho e a desfrutar da
tranquilidade do lugar de forma grátis. Há um bar onde podes comer (preço
europeu) e aceder ao WC.
A zona mais exclusiva, incluindo a ilhota Bom Bom, está reservada
aos hóspedes do hotel. Nós, movidos pela curiosidade e pelo encanto do lugar
atravessámos a ponte e explorámos essa parte (sem grande alarido e com muito
respeito pelo espaço). E a verdade é que valeu muito a pena: uma praia quase
irreal, vazia, silenciosa e rodeada por natureza, onde até podes realizar um
trilho acompanhado por um guia.
Tínhamos grandes planos para o segundo dia no Príncipe.
Afinal, a nossa estadia seria curta e queríamos aproveitar cada momento para
descobrir a ilha. No entanto, a natureza tinha outros planos. Durante
praticamente toda a madrugada e até bem depois da hora de almoço, caiu uma
chuva torrencial, daquelas típicas dos climas tropicais, sem dar qualquer sinal
de tréguas. Ficámos "presos" no hotel, a ver a chuva cair
incessantemente… Confesso que foi um pouco frustrante. Sabíamos que tínhamos
pouco tempo na ilha e muitas expectativas, e começámos a perceber que não
conseguiríamos fazer tudo o que tínhamos imaginado.
Mas as viagens também são feitas destes imprevistos e, como
tantas vezes acontece, acabámos por encontrar beleza onde menos esperávamos.
Aproveitámos para conversar com outros turistas alojados no hotel, trocar
histórias de viagem e conhecer diferentes perspetivas sobre o arquipélago.
Quando a chuva parecia abrandar por alguns minutos, aproveitávamos para
explorar os arredores. Houve até tempo para ir "à do António" beber
uma cerveja Rosema bem fresca, produzida em São Tomé, enquanto esperávamos que
o céu tivesse piedade de nós.
A determinada altura, convencemo-nos de que a chuva não ia
dar uma oportunidade e decidimos sair a pé em direção à capital. Hoje dá
vontade de rir ao recordar a cena. O hotel ficava bastante longe e nós
avançávamos por uma estrada com lama e debaixo de uma chuva que insistia em
ficar. Mas estávamos determinados a conhecer o Príncipe, custasse o que
custasse. Felizmente, a nossa aventura durou apenas uns vinte minutos. Um carro
com trabalhadores da câmara municipal parou e ofereceu-nos boleia, entre
gargalhadas e comentários divertidos sobre a nossa ousadia. Foi mais uma
demonstração da simpatia e hospitalidade santomense que encontrámos ao longo de
toda a viagem.
Nesse dia aprendemos uma lição importante: no Príncipe não
somos nós que fazemos os planos. É a natureza que decide o ritmo. E talvez seja
precisamente isso que torna a ilha, também, tão especial.
Já à noite, quando a chuva finalmente deu lugar a um céu
limpo, estávamos sentados no exterior da casa a conversar sobre os
acontecimentos do dia quando reparámos em algo invulgar. À volta da lua
formava-se um círculo perfeito de luz. Nunca tínhamos visto nada parecido.
Estávamos perante um fenómeno conhecido como Halo Lunar, um anel luminoso que
se forma quando a luz da lua atravessa milhões de pequenos cristais de gelo
presentes nas nuvens altas da atmosfera. O efeito é absolutamente mágico e,
naquele cenário de silêncio, floresta e escuridão tropical, tornou-se um dos
momentos mais inesperados e bonitos de toda a viagem.
Santo António: a pequena capital do Príncipe
Com pouco mais de dois mil habitantes, Santo António é
frequentemente referida como uma das capitais mais pequenas do mundo. No
entanto, o que lhe falta em dimensão sobra-lhe em personalidade. Situada junto
a uma baía protegida e rodeada por colinas cobertas de vegetação tropical, a
cidade é o coração administrativo, económico e social da ilha do Príncipe.
Aqui, o ritmo de vida é tranquilo, os carros são poucos e os encontros entre
vizinhos fazem parte do quotidiano.
A história de Santo António está intimamente ligada à
presença portuguesa no arquipélago. Fundada durante o período colonial,
conserva ainda hoje vários edifícios históricos que testemunham esse passado.
Ao passear pelas ruas é possível observar antigas casas coloniais (a maioria
abandonadas), edifícios administrativos e igrejas que resistiram à passagem do
tempo.
Um dos locais mais agradáveis para passear é a zona da baía.
As águas calmas, os barcos de pesca coloridos e as colinas verdejantes que
rodeiam a cidade criam uma paisagem particularmente bonita. Estivemos no antigo
porto, que durante muitos anos desempenhou um papel fundamental no transporte
de pessoas e mercadorias entre o Príncipe, São Tomé e o exterior. Hoje continua
a ser um ponto importante para a vida local e um excelente local para observar
o movimento diário dos pescadores.
É pequena, sim, mas Santo António é uma cidade viva. Existem
várias associações comunitárias, projetos culturais e iniciativas locais que
procuram preservar o património e promover o desenvolvimento sustentável da
ilha. O mercado local é outro dos pontos de interesse. Entre bancas simples, os
vendedores oferecem frutas tropicais, legumes, peixe fresco e outros produtos
cultivados localmente. É um excelente local para observar o dia a dia dos
habitantes e descobrir ingredientes que raramente encontramos na Europa.
O que mais me surpreendeu em Santo António foi precisamente
a sua autenticidade. Não existem grandes avenidas, centros comerciais ou
multidões. Em vez disso, encontramos uma cidade humana, onde as pessoas se
cumprimentam na rua, as crianças brincam ao ar livre e a natureza parece estar
sempre presente. Talvez seja essa simplicidade que torna esta pequena capital
tão especial e tão diferente de qualquer outra que já visitei.
Terceiro dia: o melhor do Príncipe num só passeio
No último dia, o nosso guia preparou um percurso pelos
locais mais emblemáticos da ilha, mas também não foi possível visitar todos
porque muitas estradas estavam cortadas por árvores caídas devido à chuva do
dia anterior.
Entre todos esses locais, a inesquecível Baía das Agulhas
ocupa um lugar especial. Com águas cristalinas, areia dourada e um cenário
praticamente intocado, é um daqueles lugares que parecem de outro mundo.
Tivemos ainda o privilégio de assistir a um dos momentos
mais mágicos de toda a viagem: a corrida das pequenas tartarugas para o mar. Ao
emergirem da areia, dezenas de crias iniciaram instintivamente a sua primeira
viagem em direção ao oceano. Ver aqueles seres tão frágeis e minúsculos
avançarem pela praia, guiados apenas pela natureza, foi uma experiência
inesquecível.
Durante alguns minutos esquecemos o drone e as câmaras dos
telemóveis. Ficámos simplesmente a observar. Cada tartaruga que conseguia
alcançar as ondas arrancava sorrisos e emoção. Foi um daqueles momentos raros
que nos fazem sentir privilegiados por estar ali, no lugar certo, à hora certa.
Sem dúvida, uma das recordações mais bonitas que trago do Príncipe.
Praia Banana e Praia Macaco
Entre as praias mais famosas do Príncipe destacam-se a Praia
Banana e a Praia Macaco. A Praia Banana tornou-se conhecida internacionalmente
pela sua forma semicircular perfeita, rodeada por vegetação tropical e águas de
um azul verdadeiramente impressionante. É provavelmente a praia mais
fotografada da ilha e percebe-se facilmente porquê.
Já a Praia Macaco oferece um ambiente mais selvagem e
reservado. Rodeada por floresta e acessível através de caminhos rodeados de
natureza, é um daqueles lugares que nos fazem sentir que estamos a descobrir um
segredo bem guardado.
Roça Sundy: onde a história do mundo passou pelo Príncipe
Nenhuma visita ao Príncipe fica completa sem conhecer a Roça
Sundy, uma das mais emblemáticas e bem preservadas do arquipélago. Fundada
durante o período colonial, foi uma das grandes propriedades agrícolas
dedicadas à produção de cacau, atividade que marcou profundamente a economia e
a história de São Tomé e Príncipe. Como tantas outras roças, funcionava como
uma verdadeira comunidade autossuficiente, com habitações, armazéns, oficinas e
todas as infraestruturas necessárias para sustentar a produção agrícola.
No entanto, a importância da Roça Sundy ultrapassa
largamente a história do cacau. Foi aqui que, em 1919, o astrónomo britânico
Arthur Eddington realizou as observações do eclipse solar que permitiram
confirmar a Teoria da Relatividade de Albert Einstein. Este acontecimento
colocou o Príncipe no mapa da ciência mundial e transformou a roça num local de
enorme relevância histórica.
A Roça Sundy foi recuperada e transformada num elegante
hotel, preservando grande parte do seu património arquitetónico original. Os
edifícios coloniais, os jardins tropicais e os amplos espaços exteriores
convidam a passear sem pressa e a imaginar como era a vida na época áurea das
plantações de cacau.
Mesmo para quem não está alojado, vale a pena visitar a
propriedade. A roça dispõe de um bar/restaurante com vistas magníficas sobre a
floresta tropical e as colinas envolventes, a desculpa perfeita para fazer uma
pausa e apreciar a tranquilidade da ilha. Também há uma pequena loja onde é
possível adquirir produtos locais, incluindo café, chocolate e outras
lembranças do Príncipe, ideais para levar um pouco da ilha para casa.
Há lugares que se visitam pela beleza e outros pela
história. A Roça Sundy tem o privilégio de reunir ambas, deixando uma impressão
duradoura em quem por ali passa.
Enquanto esperava para embarcar de regresso a São Tomé,
senti que estava a deixar a ilha demasiado cedo. Talvez seja esse o melhor
elogio que se pode fazer a um destino. De uma coisa tenho a certeza, o Príncipe
não foi apenas uma etapa da viagem. Foi um daqueles lugares raros que nos
deixam a pensar quando será possível voltar. ❤️🌴








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